17/06/2025
ANTES DA LEITURA: O GRITO DA INCLUSÃO EM "O SILÊNCIO QUE GRITA"
Reflexão de Garcia Elias Alfredo
Embora ainda não tenhamos lido integralmente "O Silêncio que Grita", de Arlindo Paulo , com base no resumo apresentado é possível antecipar algumas das temáticas que a obra poderá abordar. O livro parece centrar-se na história de Pedrito, um aluno surdo, como ponto de partida para uma reflexão crítica sobre a inclusão escolar e social em contextos marcados pela exclusão e desigualdade. Partindo desse cenário, podemos imaginar que o autor utiliza esta narrativa para evidenciar as contradições entre o discurso oficial da inclusão e a realidade vivida nas instituições educativas.
Pedrito, que se comunica "com o corpo e com o coração", parece representar todos aqueles cujas formas de expressão são ignoradas ou desvalorizadas. Esta abordagem desafia a normatividade comunicativa e valoriza a diversidade de linguagens presentes no ambiente escolar, alinhando-se ao pensamento de Boaventura de Sousa Santos (2007), que defende a valorização de saberes e práticas historicamente invisibilizadas. Deste modo, o livro poderá funcionar como um apelo à escuta do outro na sua diferença, num contexto onde a inclusão muitas vezes se resume ao cumprimento formal de normas, e não à transformação efectiva das práticas educativas.
No contexto angolano, esta discussão torna-se ainda mais pertinente. De acordo com o relatório MICS (INE & UNICEF, 2017), muitas crianças com deficiência continuam fora do sistema de ensino, o que evidencia obstáculos estruturais em termos de acesso e permanência. A possível exploração do conceito de Heimat, entendido como lugar de pertença, sugere que o autor pretende provocar uma reflexão sobre como construir um espaço educativo onde todos, independentemente das suas condições, se sintam verdadeiramente acolhidos. Como refere Mantoan (2006), a escola precisa de se reinventar para acolher a diversidade humana em todas as suas expressões.
Deste modo, O Silêncio que Grita parece apresentar uma crítica contundente à hipocrisia da inclusão simbólica, ao mesmo tempo que aponta caminhos de resistência e esperança. Ecoando a visão de Paulo Freire (1996), para quem "a educação é um acto político", o livro apresenta-se como uma obra que convida o leitor não apenas à reflexão, mas também à acção, transformando o silêncio da exclusão em vozes que lutam por justiça, dignidade e transformação social.
Estas são apenas algumas notas soltas, elaboradas com base no resumo publicado pelo autor. Assim sendo, aguardamos com expectativa a publicação do livro, no sentido de o ler em profundidade e, com isso, confirmar ou reformular as perspectivas aqui apresentadas sobre a obra.