11/04/2026
Amélia Mingas, digna de uma homenagem ímpar!!
Amélia Mingas, com doutoramento em Ciências da Linguagem pela Universidade Paris V René Descartes, em Paris, sob direção de Emílio Bonvini, com o título “Étude grammaticale de l’iwoyo – Angola”;
Com mestrado em Sociolinguística pela Universidade Paris V René Descartes, Paris, com o título “Interférence du kimbundu dans le portugais parlé à Lwanda”, sob direção de Louis-Jean Calvet;
Com mestrado em Linguística Geral e Aplicada, na Universidade Paris V René Descartes, Paris, com o título “Les classes nominales et l’iwoyo – Angola”, sob direção de Denise François-Geiger e Alain Bentolila.
Entre 1979 e 1985, passou a ensinar no Instituto Normal de Educação Física Saydi Mingas, em Luanda, e entre 1998 e 2019 escreveu o seu nome no ensino e na investigação na Universidade Agostinho Neto, chegando a regente do Curso de Línguas e Literaturas Africanas e responsável pela cadeira de Linguística Bantu, lecionando disciplinas como Fonética e Fonologia das Línguas Africanas e Linguística Bantu.
Professora Catedrática da Universidade Agostinho Neto, Amélia Mingas coordenou os cursos de Mestrado em Ensino da Língua Portuguesa e Ensino das Literaturas de Língua Portuguesa, no ISCED de Luanda, então unidade orgânica da Universidade Agostinho Neto (2005–2006), e os cursos de Mestrado em Línguas Angolanas e Literaturas em Línguas Angolanas, na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto (2012–2019).
Em Angola e no exterior do país, o seu nome aparece associado a seminários e conferências ligados à importância das línguas nacionais, formação identitária, português em Angola como língua estrangeira ou segunda, línguas, etnias e nação, multicontinentalidade linguística, diáspora, língua e história no processo de ensino–aprendizagem, entre outros.
No capítulo de orientações de teses de doutoramento, dissertações e monografias de mestrado e trabalhos de fim de curso de licenciatura, orientou dezenas de quadros, além de ter participado em inúmeros júris de licenciatura, mestrado e doutoramento, como o do malogrado académico António Fernandes da Costa, membro fundador da Academia Angolana de Letras. Teve vários “filhos académicos”, como Alexandre Chicuna, Ana Pita Grós, Benjamin Fernandes e Narciso Homem, só para citar alguns.
Amélia Mingas é mentora e patrona dos cursos de Mestrado na Faculdade de Humanidades da Universidade Agostinho Neto (2012) e do ISCED de Luanda (2005), nomeadamente os mestrados em Ensino da Língua Portuguesa e Literaturas em Língua Portuguesa, com cinquenta mestrandos inscritos, bem como os cursos de Mestrado em Língua Portuguesa; Literaturas em Língua Portuguesa; Línguas Angolanas; Literaturas em Línguas Angolanas; Língua Francesa; Literaturas em Língua Francesa; Língua Inglesa; Literaturas em Língua Inglesa; e Filosofia.
Sobre as suas publicações, contam-se “Interferência do Kimbundu no Português Falado em Lwanda” (2000), “Organização dos Cadernos de Tradição Oral” (2001), “Contos Angolanos” (2003) e “Inquérito Linguístico Angolano – ILANG”, elaborado em coautoria com Zavoni Ntondo em 1997, mas publicado em 2013. Seguem-se inúmeros artigos científicos ligados à língua portuguesa, linguística bantu e sociolinguística.
Em março de 2016, traduziu, em coautoria com o professor Zavoni Ntondo, a obra A Filosofia Bantu, de Placide Tempels, uma obra que, após 71 anos da sua publicação, conheceu a sua tradução para a língua portuguesa. Trata-se de uma obra que alcançou grande sucesso de vendas ao nível da lusofonia.
Amélia Mingas exerceu também, entre 2006 e 2009, o cargo de Diretora do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), sediado na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, tendo defendido uma política global para a língua portuguesa, assente no respeito e no enquadramento das influências de cada país na estrutura formal do português.
Defendeu, igualmente, a necessidade de estudar e inventariar a evolução da língua portuguesa nos países lusófonos e foi precursora da ideia de que os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa deveriam adotar uma política linguística que definisse o estatuto da língua portuguesa nos respetivos países, em função da coexistência com as línguas locais, considerando que o português é a língua comum de oito Estados.
Amélia Mingas veio a falecer em 12 de agosto de 2019, aos 73 anos, em Luanda, vítima de paragem cardíaca. Era uma figura central no estudo e na promoção da língua portuguesa e das línguas nacionais em Angola. O seu falecimento silenciou uma das vozes mais contundentes na defesa dos ideais científicos africanos.
Após a sua morte, várias homenagens lhe foram prestadas. Em 2020, foi lançado o livro Amélia Mingas: a mulher, a cidadã, a académica, para celebrar a sua vida e o seu contributo para a lusofonia.
Se um dia vier a ser publicado o Livro de Ouro da Mulher Angolana, um dos nomes a incluir terá de ser o de Amélia Mingas.
By: Abdenego Eduardo