15/06/2020
O DCE do Campus Feliz vem por meio desta nota tornar público o seu posicionamento contra o abaixo-assinado, que foi encaminhado aos alunos por um grupo de professores pedindo o retorno das atividades letivas, acontecendo de forma remota.
Somos estudantes de uma instituição federal, cujo slogan é "Educação Pública, Gratuita e de Qualidade" e prezamos por ele.
O e-mail com o link da petição chegou através de um e-mail privado de um dos professores e foi encaminhado a todos, solicitando que assinasse quem fosse a favor. Porém, esse abaixo-assinado ignorara dados importante, do próprio IFRS. Segue o link de uma notícia do dia 12 de maio.
IFRS realiza diagnóstico para discutir a recuperação do calendário acadêmico
https://ifrs.edu.br/ifrs-realiza-diagnostico-para-discutir-a-recuperacao-do-calendario-academico/?fbclid=IwAR32bywHAF5X6gEohro1aXuq2VNdlZBFesJJiHMayzEdh0UJdp4osVxfskA
Um trecho dessa mesma notícia:
“Os resultados do diagnóstico revelam limitações, tanto de estudantes quanto de servidores, para a realização do ensino de forma remota. “Já sabíamos que muitos estudantes não possuíam acesso a computador e internet em suas residências, percentual que chega a até 80% em algumas turmas, conforme o diagnóstico discente realizado em 2019. Este novo diagnóstico revela que, mesmo aqueles que possuem acesso à internet, têm limitações severas para acompanhar as aulas a distância”, comenta Lucas Coradini pró-reitor de Ensino.”
Aqui está o link direto para os resultados: https://docs.google.com/document/d/e/2PACX-1vTUM3omLSQ-282VshTtL3587Bkb9-sH6wwbioGyUUkdtXN6Ex8hZhQ6tIbTDGkC5axJkpMrVMdJGq6x/pub
Se a preocupação desses professores é com a educação, por que ignoram esses dados, que mostram os diversos obstáculos para a educação remota no IFRS? Por que propõem algo que coloca em cheque a “qualidade” de nosso slogan? No documento também não consta o que acontecerá com quem não puder acompanhar as aulas nesse momento. Por que uma medida excludente, irresponsável e feita pela metade foi lançada? Se fosse uma medida realmente boa e viável, por que a Reitoria não a consideraria? Professores, vocês já se questionaram que, talvez, essa medida não foi ouvida porque é absurda, num momento desses?
Vivemos um momento de tensão, com o risco Covid-19 e as longas semanas de isolamento, sem contar a instabilidade política de nosso governo. Todos os dias somos bombardeados de notícias que nos põem medo do futuro. Que condição psicológica os alunos terão de acompanhar essas aulas? Fora os alunos que passam pelos mais diversos tipos de dificuldade, que nós, do DCE, vimos com nossos próprios olhos.
Temos consciência que essas pessoas não são unanimidade, mas outro ponto que o documento do abaixo-assinado traz é que não dar aulas para ninguém seria “uma medida excludente”. Perguntamos: dar aula para um número x de alunos e não se preocupar com quem vive essas realidades não seria, também, uma medida excludente? Se educação é tão importante, por que o professor que encabeça a iniciativa sempre se mostrou resistente a mudanças em suas práticas, pelo bem estar dos alunos e em prol do seu aprendizado? Por que ele propõe uma medida de mudança à nível institucional, mas se recusa a mudar práticas individuais?
Salientamos que, quando as atividades retornarem, o calendário acadêmico seguirá correndo normalmente, até o período de suspensão ser recuperado. Teremos algumas restrições da Organização Mundial da Saúde, mas em termo de dias letivos, seguirá normalmente, um dia de cada vez, visto que a recuperação de dois dias letivos num só é ilegal.
Defendemos assim mesmo o direito desses professores se expressarem, mas de forma clara, correta e transparente.
Um trecho desse documento encaminhado aos alunos diz o seguinte.
"Considerando que o Estado do Rio Grande do Sul autorizou aulas remotas nas redes pública e privada a partir de 1º de junho, considerando ainda que o parecer CNE nº 05/2020 foi homologado, solicitamos que haja a possibilidade de reativação dos calendários acadêmicos, dando a cada campus, através de seus respectivos Conselhos de Campus (CONCAMP), a autonomia para deliberarem sobre a possibilidade de:", apresentando cinco tópicos vagos sobre o que defendem.
Salientamos que o IFRS é uma Rede com 17 campi, porém ainda é uma única instituição de ensino. Em diversas situações de adversidades passadas, nos posicionamos como UMA instituição. Assuntos internos de cada campus são resolvidos individualmente, porém uma questão dessa magnitude é de decisão geral.
Perguntamos: por que professores que, sempre que podem, contrastam a realidade do IFRS com as realidades Estadual e Municipal, fazendo questão de enfatizar como somos privilegiados, acham coerente adotar uma medida do Estado? Não falamos com demérito às escolas estaduais, que não têm culpa de sua realidade, apenas perguntamos aos professores envolvidos: por quê?
Se se preocupassem tanto assim com a educação, se informariam sobre como está a situação das aulas EaD. Professores e alunos sobrecarregados e uma queda no nível de aprendizado. O IFRS é um marco na educação pública, gratuita e de qualidade, e assim deve se manter. Enquanto a qualidade não puder ser garantida para TODOS, nós, como entidade que representa os estudantes, nos posicionaremos contra.
Também ressaltamos que essa ideia do EaD foi um posicionamento de alguns professores do campus Feliz. Alguns professores, numa realidade de mais de SESSENTA discentes, de UM campus, dos DEZESSETE do IFRS. Se essa medida é realmente boa, por que não é uma iniciativa conjunta? Não é de hoje que o Campus Feliz se coloca numa bolha dentro da instituição que representa.
Uma das propostas apresentadas é:
c) Defesa remota de Relatórios de Estágios Obrigatórios e Realização de estágios não-obrigatórios em empresas cujas atividades não foram paralisadas e que tenham tomado as medidas sanitárias recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Vivemos numa região onde duas empresas tiveram surtos de caso de Covid, e essa medida é algo que, simplesmente, coloca os alunos da instituição em risco. Além disso, a principal recomendação da OMS é O ISOLAMENTO, coisa que o IFRS vem respeitando desde o início, com a suspensão das atividades.
Estamos vivendo uma situação que nunca vivemos antes. Essa paralisação pode despertar a sensação de que estamos perdendo tempo da nossa vida etc. Todos compartilhamos esse sentimento. Porém, é essencial perceber que os jornais estão anunciando milhares de mortos em nosso país. Aulas EaD não são uma solução viável, MUITO MENOS INCLUSIVA.
Falaremos também da questão da possibilidade de evasão, devido a essa paralisação das atividades por tempo prolongado. Não foi citada diretamente, mas sem dúvida será usada como contra-argumentação.
A evasão é um problema grave no campus Feliz. Há dados sobre isso, há pessoas que se movimentaram para tentar combatê-lo, como por exemplo, pensando formas de preservar a saúde mental dos alunos. Porém, há professores que se recusam a cooperar com isso, se mantendo firme com seus posicionamentos e métodos didáticos. Alguns desses estão envolvidos com essa petição. Perguntamos: onde estava essa preocupação com os alunos, com ensino e evasão até agora? Onde f**a essa preocupação em final de semestre, quando alunos sobrecarregados têm que matar períodos de aula para estudar/fazer atividades de outras disciplinas?
Todos queremos nosso diploma, mas chegaremos lá como sempre chegamos: juntos e com um ensino para todos, com a qualidade que sempre nos orgulhamos, fazendo de nosso jeito. Outras instituições têm outras realidades, carregam outras bagagens. Nós somos IFRS e nós, do DCE e para os demais colegas e funcionários, enxergaremos sempre os nossos membros como pessoas, como realidades distintas e não como uma massa.
Resultados revelam limitações, tanto de estudantes quanto de servidores, para a realização do ensino de forma remota.