31/07/2025
RFI: Como é que se passou de uma situação em que se enceta um movimento de greve, para os tumultos que se registam desde segunda-feira?
Serra Bango: O que aconteceu na segunda-feira é uma acção que tem dois elementos. É a manifestação de uma greve promovida, convocada, pelas várias associações de taxistas e, neste processo, houve a intromissão do governo angolano em tentar criar uma divisão no seio da organização. Umas associações suspenderam a greve, mas há uma outra que congrega a maior parte dos taxistas que manteve a greve. A greve foi convocada com antecedência e foi comunicado à população que não haveria transportes para a mobilidade. Sabe que em Luanda, em Angola, os transportes públicos são precários, são deficientes. A maior parte da população desloca-se pelos carros privados, taxis chamados 'candongueiros'. Ora, também houve um outro movimento que aproveitou a ausência da população nas vias para fazerem pilhagens e actos de vandalismo nos estabelecimentos comerciais. Porque há gente que passa a vida a roubar, há também a fome e a penúria que grassa sobre a população angolana e aproveitaram-se deste momento e também da ausência do policiamento nas vias públicas para fazerem os actos de vandalismo. Mas existem aqui alguns factos que não podem passar despercebidos, que são o seguinte: primeiro, há uma coincidência entre esta greve e os acontecimentos que ocorreram a 10 de Janeiro de 2021 no distrito urbano de Benfica (em Luanda), que também começou com uma suposta greve dos taxistas e que terminou em actos de pilhagem e incêndio de um comité distrital do MPLA, que no final tentaram atribuir as responsabilidades à UNITA. Neste acto de 10 de Janeiro a que me refiro, também não havia policiamento. Desta vez, também não havia policiamento suficiente. Portanto, esses actos começaram no Golfo, uma zona muito próxima à do Benfica, que depois se estenderam por várias outras zonas da cidade de Luanda.