23/05/2020
Estávamos todos na rua, sentados em poeiras de correntes que formavam um banco incomum, acariciados pelos mosquitos, apesar de ninguém os ligar. Estávamos nós, abraçados pela escuridão da noite e iluminados pela lua cheia daquele dia de verão. Naquela imensidão de des-sonhamento, atirámos para o alto as decepções diárias, do avilo que perdeu o salo, do mano que reprovou no teste da universidade e do kamba que sofreu mais um c***o da "Mulata" depois de ter perdoado o primeiro... Era quase regra aquela comunhão de segredos de estado às 18h de todos os dias, algumas vezes interrompido pelas bozinas dos carros que por aí passavam, outras vezes pelos familiares que chamavam para o jantar...
- Vão jogar essa mutucuria longeee - gritava a tia Madó sempre que a bola dos putos beijava o portão dela a força...
O Momelão era o único despreocupado, quase sempre a sorrir. O pseudo "perdido" era na verdade o mais lúcido ao ponto de VIVER quando os outros se preocupavam apenas em lamentar...
- Hey Gabirú*, paga ainda uma geladas, tô bem dismandjocado - Dizia ele aos manos sempre com um sorriso de ponta a ponta... Lá se foram os tempos em que ele era o mais temido banda, o camarada caçumbulou também alguns sonhos e depois perdeu-os para os ventos do Oriente, até os dele... Hoje só restaram cicatrizes das velhas horas de terror na cuzú, as mesmas que levaram-no à caixa da desrealidade de ter perdido amigos do tempo do babulo*.
- Então, padrinho, não vem nenhum brilho no popô? - Era sempre o Momelão tentando convencer o dono do el dourado dos esquecidos...
Na kiconda* da Rua estava o Ti Mateteu, reclamando as pensões dos antigos combatentes que nunca chegam, descarregava as suas malambas na bola dos canucos pela poeira que só lhe aumentavam a espessura da pele. Tem mazé problema aquele cota. Queria eu, ver a lata dele na hora dos graniles*, também foge como todo mundo. A tia do pincho, Viúva, de quem não se sabe o nome, só vende de noite e desconfia-se que foi mesmo ela quem empurrou o coroa... A família dele fez uma confusão nas vésperas do óbito, todos especulando as 1000 formas que eventualmente ele tenha sido morto, é sempre assim nos tambís* da banda. Desde então a única família dela somos nós. Ninguém quer saber dessas estórias, comemos o pincho e ainda cuia bué...
A noite ainda era uma criança, quando ouvimos o "Stemani na Maste" do outro lado da rua, era o Momelão a exibir a nova roupa, uma pouco mais digna que as anteriores, já todo dismandjocado* a tentar conquistar a Viúva... Nós nos matamos de rir, sempre rimos quando coisas do género acontecem... Entre conversas aleatórias de planos que nunca vão acontecer aquele era o nosso intervalo e momento feliz em meio a tanto sofrimento...
" Oi, oi, oito, nove, dez... ", era assim que alguns bradas* desfarçavam sempre que se aproximava uma mana que aparentava ser bonita e na verdade não era. As da banda, só víamos já no binóculos, ou quando o papóite* do V8 preto estacionasse as 23h...
"Vocês são crianças, não têm maturidade" - Diziam elas quando alguém tentava lhes chamar. Com o tempo percebemos que maturidade era sinónimo de dinheiro. Mas a noite continuava bela, entre a roda de Freestyle dos bradas, a mudez do resto do mundo, a surdez daqueles que comandam tudo e a luz iluminando a roda dos futuros artistas. E depois desse des-sonhamento, colocávamos novamente as nossas capas da dificuldade e regressávamos a nossa casa, às nossas batalhas, esperando ansiosamente a sessão do dia seguinte...
Telmo Pires in Uma Noite na Madeira
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