26/02/2018
Em 26 de outubro de 1887, o Clube Militar enviou petição à Princesa Isabel, assinada pelo seu presidente, marechal Manoel Deodoro da Fonseca, buscando autorização para declinar da ordem que a Regente havia feito, buscando que o exército recapturasse os negros que haviam fugido à escravidão, sete meses antes da abolição oficial.
Vale a pena a leitura!
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Senhora!
Os oficiais, membros do Clube Militar, pedem a Vossa Alteza Imperial um pedido, que é antes uma súplica. (…)
ESPERAM QUE O GOVERNO IMPERIAL NÃO CONSINTA QUE nos destacamentos do Exército, que seguem para o interior, com o fim, sem dúvida, de manter a ordem, tranquilizar a população e garantir a inviolabilidade das famílias, OS SOLDADOS SEJAM ENCARREGADOS DA CAPTURA DE POBRES NEGROS, que fogem à escravidão, ou porque vivam já cansados de sofrer os horrores, ou porque um raio de luz da liberdade lhe tenha aquecido o coração e iluminado a alma.
Senhora! A liberdade é o maior bem que possuímos sobre a terra; uma vez violado o direito que tem a personalidade de agir, o homem para reconquistá-la é capaz de tudo: de um momento para outro, ele, que dantes era um covarde, torna-se herói; ele, que dantes era a inércia, se multiplica, e se subdivide e, mesmo esmagado pelo peso da dor e das perseguições, ainda mesmo reduzido a morrer, de suas cinzas renasce sempre mais bela e mais pura a liberdade. (…)
É IMPOSSÍVEL, POIS, SENHORA, ESMAGAR A ALMA HUMANA QUE QUER SER LIVRE.
Por isso, os membros do Clube Militar, em nome dos mais santos princípios de humanidade, em nome da solidariedade humana, em nome da civilização, em nome da caridade cristã, em nome das dores de Sua Majestade, o Imperador, vosso augusto pai, cujos sentimentos julgam interpretar e sobre cuja ausência choram lágrimas de saudades, em nome do vosso futuro e do futuro de vosso filho, esperam que o Governo Imperial não consinta que os oficiais e as praças do Exército sejam desviados de sua nobre missão.
ELES NÃO DESEJAM O ESMAGAMENTO DO PRETO PELO BRANCO e não consentiriam também que o preto, embrutecido pelos horrores da escravidão, conseguisse garantir a sua liberdade esmagando o branco.
O Exército havia de manter a ordem. Mas diante de homens que fogem calmos, sem ruído, mas tranquilamente, evitando tanto a escravidão como a luta, e dando, ao atravessar cidades, exemplos de moralidade, cujo esquecimento tem feito muitas vezes a desonra do Exército mais civilizado, o Exército Brasileiro espera que o governo imperial conceder-lhe-á o que respeitosamente pede em nome da honra da própria bandeira que defende.
Fonte: BENTO, Cel. Cláudio Moreira. O Exército e a Abolição. Do Leitura, São Paulo, 7/73 junho de 1988. p. 10. Disponível emhttp://ceao.phl.ufba.br/phl8/popups/1988-jun_rr.pdf Acesso em 26/02/2017.