17/04/2017
"Volta e meia escuto alguém falar que usamos só 20% da nossa capacidade mental – mas isto é verdade?
Vou tentar responder esta questão com a história dos “surdos mudos". Quando um surdo não tem contato com outro surdo, ele, por não conseguir conversar com ninguém, parece possuir deficiências intelectuais, antigamente sendo muitas vezes considerado retardado mental. Mas, se ele conviver com outro surdo, os dois passam a se comunicar por sinais que rapidamente se desenvolvem em uma língua bastante completa. Mais impressionante é se surdos puderem ir a escolas onde se ensina e fala a língua de sinais (no Brasil conhecida como LIBRAS – língua brasileira de sinais). Neste caso, os surdos tornam-se intelectualmente normais e, obviamente, deixam de ser “surdos mudos”, pois conseguem “escutar “ e “falar”, só que de forma diferente. Passam a ser simplesmente deficientes auditivos.
Para os falantes, observar pessoas se comunicarem em LIBRAS (alguns discursos na TV tem um quadrinho no qual uma pessoa faz gestos), parece estranho e certamente não se parece com uma língua. Mas, LIBRAS é uma língua muito similar à nossa, possuindo todas as possibilidades de comunicação e talvez até algumas a mais quando comparada com a nossa língua falada.
No livro “Vendo Vozes” o neurologista Oliver Sacks descreve os falantes de LIBRAS como totalmente fluentes, sem ter que pensar que tal sinal significa tal coisa e o próximo sinal significa tal outra coisa. Simplesmente observam e entendem, como nós escutamos e entendemos o contexto geral do texto, sem ter que pensar nas palavras individuais. O mais impressionante é que pessoas fluentes em LIBRAS sonham movimentando as mãos, como se tivessem “falando”.
O nosso cérebro é organizado de forma que características diferentes do nosso comportamento sejam processadas em áreas diferentes. Existem áreas responsáveis pela visão, pela audição, pelos movimentos e assim por adiante. No caso dos deficientes auditivos, eles passam a usar a área normalmente usada para a audição (que não tem utilidade) para processar as sutilezas de movimento que caracterizam LIBRAS.
Se qualquer um de nós quisesse aprender a falar a língua de sinais, conseguiria? Sim, com bastante esforço conseguiria. Mas quantos de nós falamos? Pouquíssimos, pois precisaríamos investir muito tempo para aprender a falar esta língua diferente. Teoricamente temos a capacidade, mas não o fazemos por falta de tempo ou de interesse. Neste sentido, até podemos dizer que usamos só 20% da nossa capacidade, pois poderíamos aprender muitíssimas coisas, mas não o fazemos por falta de tempo. Portanto, não é verdade que usamos só 20% da nossa capacidade – usamos toda a capacidade que conseguimos usar no tempo e nas condições que nos são dadas. Mas é bom viver com a ideia que, caso quiséssemos aprender a falar LIBRAS ou chinês, conseguiríamos."
Autoria: Guido Lenz