23/03/2020
A infância de quarentena
Temos nos reunido, mensalmente há mais de ano para conversar sobre as crianças que temos visto em campo e suas produções brincantes. Estivemos, 08 pesquisadores, em diferentes pontos da cidade. No terreno desocupado ao lado de uma escola, em uma comunidade indígena, em escolas publicas e privadas, em uma associação para crianças deficientes visuais, em terrenos baldios de comunidades super populosas. Para além dos incríveis brincares de que fomos testemunhas, percebemos com nossos corpos, semanalmente, como a criança é tantas vezes negligenciada, por camadas e camadas de ações, das mais sutis às mais profundas. Nos nossos encontros mensais conversávamos sobre como essa súbita consciência, nascida na observação, nos machucava. Constatamos - olhando por meio das crianças - como elas são de fato e tantas vezes, a última prioridade:
De famílias que tem muito o que fazer e não tem tempo - as nossas inclusas.
De escolas preocupadas com a transmissão de conteúdos e que não veem as necessidades manifestas nos gestos infantis.
De governantes que nem sequer levam em conta as necessidades da cultura da infância sob nenhum aspecto.
Vimos – porque estávamos em campo – diferentes pontos da cidade se transformar e se curvar frente aos interesses imobiliários, independentemente da saúde social. Mesmo nos espaços onde se prioriza o coletivo, os adultos dão mesmo o tom.
Também percebemos como as crianças sentem as mudanças, lamentam internamente perdas de espaços e ações, adaptam-se às novas configurações sem perguntas nem protestos. E seguem em frente, um pouco mais crescidas do que antes.
Nós, zanzando por aí de celular em riste, sem nunca “perder tempo”, passamos a organizar até mesmo os tempos e espaços de lazer, sem garantir momentos de ócio de fato, quanto mais um mergulho em interações verdadeiras, sem distrações. Isso fez-nos a estrutura capitalista, nela estamos todos imersos. Produzindo mais e mais, lutando para que o individualismo não seja tão exacerbado, criando estratégias de encontros, marcando na agenda, reproduzindo uma cadeia de fortes e fracos atores sociais.
Mas aprendemos com as crianças de locais variados, com destaque para as comunidades periféricas: toda adversidade traz uma oportunidade.
Fechados agora em casa, os olhos das crianças estalam em brilho diante da possibilidade de um maior convívio familiar. Avisamos que é tempo de recolhermo-nos todos juntos, temos visto que quem pode ficar em casa está, ao fim e ao cabo, em uma situação privilegiada. Há jubilo em certo sentido, pois a vida pode ser mais o dentro do que o fora. Seres de sabença, as crianças não se abalam, aceitam sem renitência.
Mirim, dizem os guaranis. Significa “o pequeno que contem o grande”. Revela uma potência, e não uma falta. Não precisam aprender nada necessariamente, está tudo ali dentro. Os mirins são orientados, mas sobretudo respeitados. Mirim é este lugar onde você não vai ser alguém, pois você já é. O formato é pequeno, e a malícia, menor. Mas o saber é imenso. Temos visto como ele é potente. A nós, adultos mais próximos, falta-nos tempo para a escuta desse saber, ocupados que estamos em direcioná-las a tantas atividades diárias para que possamos todos, em diferentes classes sociais, afinal de contas, produzir.
Oportunidade. Aos poucos, no correr dos dias, talvez possamos perceber como o tempo se dilata sem tantas infinitas ocupações. Do mesmo modo, como se reconfigura a percepção do espaço: miudezas tornam-se maiores. Miniaturas e detalhes na casa, antes despercebidos, ressaltam-se diante dos olhos infantis. Para isso, basta um nada para fazer.
Vemos nas crianças como são importantes as ações onde elas sejam produtoras e protagonistas, não apenas consumidoras passivas. Por isso é interessante distanciar-se das telas. Ou buscar nelas provocações para a ação. Quanto mais tempo passivas receptoras de conteúdo, mais agitadas e desconectadas ficam depois, fato.
Não se trata de “sobrecarregar” mães e pais para serem recreadores infantis, mas resgatar o compartilhar de alguns tempos e atividades. Não há novidade, é uma prática humana das mais valiosas, perdida nas sociedades contemporâneas. Nas sociedades tradicionais de onde minha família é oriunda, as crianças nunca foram excluídas. Não havia programas diferenciados para os adultos e para os grandes, mas atividades coletivas.
Parece então uma boa ideia priorizar o fazer junto. São muitas coisas que devemos realizar e que podemos compartilhar: limpar a casa e organizar, cozinhar, cuidar e dividir responsabilidades. O cuidado com os seus e com os objetos pessoais. Muitos beijos e abraços entre os nossos. Separar o que não se usa mais.
Gestos do fazer são inspiradores e com mais tempo, quem sabe possamos oferece-los? Tirar aquela cesta de costura do armário, arriscar-se naquela receita, tentar a jardinagem. Iniciativas de aprender uma coisa nova mesmo sendo “grande” encantam os pequenos. Eles aprendem e apreendem mais de nossos gestos do que de nossas palavras.
Em toda casa, há provocações que as crianças respondem e se interessam. Podemos potencializa-las. Uma caixa de materiais reciclados ou outras matérias primas, uma caixa de ferramentas, tintas e outros convites às ideias infantis que brotam do ócio. Estes momentos vazios são chamados por tantos autores de “ócio criativo”.
“A alegria não tira nossa seriedade” costumava entoar meu amigo Mag. Ler e se expressar (desenho, argila, teatro, história). O recurso de campeonatos de jogos entre os familiares (mesmo que jogo de memória, de mímica...). A pesquisa de outros jogos e outras brincadeiras. Arriscar um instrumento. Professoras de nossos afilhados enviaram sugestões de atividades que não envolvam conteúdos programáticos: ouvir (e só ouvir) uma música muito boa por dia. Também observar uma planta diariamente, com muita atenção, mesmo que seja um feijão – entre outras manifestações da natureza possíveis de serem notadas. Levantar hipóteses, aguçar a percepção. Registrar esses dias em cadernos de desenho e escrita. Contar, somar, dividir, decorar tabuada, pulando corda.
"Sempre, um pouco de sol por dia, decidir pela alimentação saudável, dormir tempos suficientes, ser feliz, manter o coração aquecido", disseram elase achei oportuno compartilhar.
Dar boas risadas. Aos adultos calma e confiança, já sabemos que vai piorar antes de passar. O vírus vai nos entristecer, deflagrará desigualdades. Talvez encontremos caminhos para repensar e restringir o individualismo exacerbado, para enaltecer ações mais coletivas e sustentáveis, aprender com a descapitalização de tudo. Compartilhar as boas práticas destes tempos originais, reconhecer nossos privilégios e usa-los em favor do bem comum. E com tempo, quiça perceber os mirins como mestres, elevando-os à categoria da solução que nos ensinam diariamente e cotidianamente.
Soraia Saura é docente na Faculdade de Educação e na Escola de Educação Física e Esporte da USP, também pesquisadora do Projeto Território do Brincar. https://territoriodobrincar.com.br/