20/12/2019
https://medium.com//hist%C3%B3ria-da-riqueza-do-brasil-resenha-parte-1-brasil-col%C3%B4nia-9bf8aff5199c
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Ironicamente, apesar de serem base para raciocínios nacionalistas e progressistas, os clássicos Caio Prado e Celso Furtado caíram no mesmo vício de análise das retrógradas autoridades e elites coloniais: Depreciaram a realidade econômica fora de hipóteses pré-estabelecidas e instituições políticas que não no molde do Antigo Regime. Em suma, superestimam o Brasil da escrita e subestimam o Brasil do costume.
Caldeira demonstra que a velha narrativa de que a Metrópole Portuguesa, por meio do comércio internacional, foi se enriquecendo ao custo do empobrecimento da Colônia Brasileira é apenas isso: uma narrativa. A economia colonial era essencialmente a de um comércio informal, fundado no costume e na tomada de risco. Em outras palavras, o bruto da riqueza sempre esteve na esfera interna da colônia. Tampouco a dualidade Latifundiários-Escravos explica muito:
´A maior fração econômica da produção colonial cabia aos produtores independentes, donos de seus meios de produção e tomadores de risco — ou seja, os empreendedores´´
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Em dados, a surpreendente conclusão toma a forma de apenas 9% do contingente de homens livres como possuidores de escravos no final do século XVIII. Em números, a produção voltada para o mercado interno representava 85% do total, contra apenas 15% das exportações. Ao contrário do repetido à exaustão, os costumes econômicos da colônia brasileira são muito mais parecidos com as colônias do norte dos EUA que as sulistas escravistas.
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Chegando no início dos anos 1800, a economia brasileira não só era muito mais rica que a de Portugal como se equiparava com a dos EUA. A explicação para o subdesenvolvimento brasileiro fundado na hipótese de mercado externo submisso a interesses estrangeiros e mercado interno estagnado e de subsistência não se sustenta. Nesse contexto, Caldeira atribui a maior parte desse atraso a atuação política do tempo imperial.
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Ao longo do século XIX não eram raros discursos contra a iniciativa privada e a livre concorrência, uma vez que estes seriam imprevisíveis, incentivadores de ´´paixões´´ e gerariam uma riqueza ´´artificial´´, visto que a verdadeira riqueza seria a fruto da terra, a única fonte de valor capaz de produzir ´´mais-valia´´ (a indústria nada criaria, apenas transformaria). No começo do despontar capitalista, governantes brasileiros ainda pensavam como fisiocratas franceses do século XVII, com o adendo da defesa escravista em meio a um ocidente que há muito era de trabalho assalariado.
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Quanto a atribuição do atraso brasileiro a instituições políticas autoritárias e elitistas, igualmente a hipótese não para em pé. Até o período do Império, e em certo grau até o Governo Vargas, a administração a nível local foi espontaneamente democrático e, sobretudo, submeteu a sua lógica as administrações centralizadas, e não o contrário
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Interessante notar que o discurso moderno de como as leis não ´´pegam´´ no Brasil por uma tradição cultural ganha outra faceta a partir desses estudos: Tal fato não seria, pelo menos as vezes, digno de comemoração?
O retrato mais otimista do período colonial não é uma apologia irresponsável. Certamente a história brasileira está repleta de vícios e muitos eventos dignos de lamento, o que Caldeira prova, não obstante, é que tal fato é insuficiente para um retrato fiel do passado e, consequentemente, para as prescrições ideológicas clássicas do presente. O Brasil do costume, da gestão comunitária e do bem-sucedido comércio informal não planejado não é um complemento ou um detalhe curioso, mas a substância principal da história nacional durante o período colonial.