28/01/2024
Qual é a importância de pensar sobre política quando somos estudantes de medicina?
No dia 23 de janeiro, houve uma grande repercussão devido à recusa, por parte do Hospital São Camilo, da colocação de um DIU em uma paciente que desejava contracepção. O Hospital buscou esclarecer essa questão, afirmando que a instituição seguia diretrizes católicas e, portanto, não compactuava com procedimentos ditos “quase abortivos”.
Qual é o problema de tudo isso? Bem, pensando como estudantes de medicina, ou, ainda, médicos, uma das primeiras coisas que devem chamar a atenção é o fato de condutas hospitalares serem guiadas por preceitos religiosos - que, inclusive, se sobrepõem aos científicos nesse caso - mesmo que essa não seja a crença do paciente ou até a do médico. É inadmissível fomentar, especialmente no hospital, a falsa ideia de que o DIU e outros métodos contraceptivos legalizados no Brasil sejam abortivos - uma vez que esses atuam antes da implantação do feto no útero -, pois, além da informação ser infundada, ela limita o acesso a um serviço de saúde da pessoa com útero a partir da imposição de uma crença. Ainda que a instituição seja privada, a saúde complementar visa, também, ao oferecimento de serviços sem distinção religiosa neste país que é laico e no qual a Agência Nacional de Saúde Suplementar prevê procedimentos contraceptivos em seu rol.
Outro ponto problemático é o machismo reproduzido por essa decisão do hospital. Apesar da instituição negar a realização, também, de tais intervenções em indivíduos de s**o masculino, sabe-se que, em casos de gravidez, a responsabilidade recai, na maior parte dos casos, sobre a mãe (um bom exemplo é o fato de que 15% dos lares brasileiros são chefiadas por mães solo - https://g1.globo.com/google/amp/bom-dia-brasil/noticia/2023/05/12/brasil-tem-mais-de-11-milhoes-de-maes-que-criam-os-filhos-sozinhas.ghtml). Assim, a não existência da contracepção é um problema essencialmente feminino.