23/01/2018
No dia 19.01.2018 foi realizado o primeiro lançamento do estudo em dois volumes De que Adoecem e Morrem os trabalhadores na Era dos Monopolios 1889-2016, na Fundação Perseu Abramo em São Paulo, sob a direção conjunta da FPA e da Federação dos Químicos do ABC, essa como representante das entidades patrocinadoras da elaboração e impressão do presente estudo. Expuseram os economistas Denise Lobato Gentil, da UFRJ e José Dari Krein, do Cesit/ Unicamp, autores dos posfácios e o cientista Herval Pina Ribeiro, professor em Saúde Coletiva e Relações Sociais de Classe e Trabalho, coordenador do presente estudo e diretor do Cenpras.
O livro tem as orelhas redigidas pelo Professor em Filosofia do Direito da USP, Alysson Leandro Mascaro, o prefácio pelo Professor de História da Universidade de Birmingham Paulo Fernando de Moraes e Faria e posfácios dos professores Fábio Ancona Lopes (Unifesp), Denise Lobato Gentil (UFRJ), Edith Selligmann-Silva (USP), José Ruben Alcântara Bonfim (ISSSESP), Jairnilson de Souza Paim (UFBA), Gaudêncio Frigotto (UFF), José Dari Krein (IE/Cesit/Unicamp e Wilson do Nascimento Barbosa (FFLCH/USP), colaborações de trinta e cinco mestres em suas respectivas áreas de trabalho.
Segue a síntese da exposição do coordenador do estudo Professor Herval Pina Ribeiro
DE QUE ADOECEM E MORREM OS TRABALHADORES NA ERA DOS MONOPÓLIOS-1889/2016.
Massacre e resistência
SÍNTESE
I
A causalidade da perda coletiva da saúde e da capacidade de trabalho e o morrer precoce dos trabalhadores que emergem da revolução industrial no século XVIII são algumas das questões indissociáveis das relações sociais desiguais entre a classe que compra trabalho por interesse de lucro e a que vende por necessidade de sobrevivência.
Por conseguinte, há anteposições históricas e derivações. Assim as mudanças que ocorram são resultados dialéticos de anteposições e eventuais confluências entre as forças do capital e as do trabalho.
Enfim, o adoecer e morrer dos trabalhadores não são meras questões de cuidados de prevenção na produção, nem de medicina de cuidados pós acontecidos, porém de políticas de classe mutáveis que incidam mais em sua causalidade do que em suas causas visíveis. O alerta é para que não se as tome como questão autônoma, per si.
II
Fotos mexem com a imaginação. O absurdo da capa do volume I subtende-se: a indiferença de profissionais de saúde diante de violência policial escrachada num espaço de cuidados seus. Explicitas ficam a omissão e cumplicidade culposa ou dolosa, minimizadas pela dó de algum ou alguns para com o acorrentado mostrada pela tentativa de proteger-lhe o tornozelo. A foto da capa do volume II é um escárnio do agente de carceragem que se negou a abrir o cadeado e obrigou a direção do hospital fazê-lo. É engano imaginar que tais condutas são exceções nos serviços do SUS. Essas ultrapassam limites civilizatórios.
III
Esse é um estudo de cinco décadas. Envolveu três dezenas de pesquisadores e milhares de trabalhadores da área como sujeitos e vítimas que removeram situações para refazer a falsidade histórica do patronato, seguradoras privadas e do Estado sobre a Infortunística que praticam e classifica como doenças e acidentes da produção apenas os aparentes e de maior gravidade, batizadas como patologias do trabalho, cuja relação de causa/efeito é objetiva e mensurável. Conquanto sejam milhões por ano no Brasil, as notificadas ao INSS e seguradoras são uma fração pequena dos que acontecem, em atividades fabris, como as de mineração, metalurgia, química e frigorífica. A legislação é frouxa e a sonegação enorme.
IV
Partes, capítulos e temas
Volume I
Parte I: Violência de classe, Estado e monopólio.
Capítulo I - Classes e violência de classe.
Capítulo II - A Era dos Monopólios e o Estado.
Capítulo III- O Estado e o direito burguês.
Parte II: Produção e trabalho na indústria.
Capítulo IV - Confluências e monopolização industrial.
Capítulo V - A produção e trabalho na indústria de frango.
Capítulo VI - A produção e trabalho na indústria de calçados.
Parte III: Produção e trabalho em serviços.
Capítulo VII - A degradação do trabalho na educação
CapítuloVIII- O Judiciário: política, violência e serviços
Volume II
Parte IV: Necessidades primárias da classe trabalhadora.
Capítulo IX - Alimento, a mais primária das necessidades.
Capítulo X- Trabalho.
Capítulo XI - Educação.
Capítulo XII - Seguridade Social e Assistência médica e hospitalar
Parte V: Sociopatias, produção e trabalho fabril.
Capítulo XIII - Os TCS em operários metalúrgicos,petroquímicos e
químico-farmacêuticos.
Capítulo XIV - Os TCS em operários de frigorífico, curtumes
e calçados.
Parte VI: Sociopatias, produção e trabalho em serviços.
Capítulo XV - TCS em bancários e no Judiciário.
Capítulo XVI - TCS em operários de telesserviços
Parte VII: Autonomia sindical em saúde.
Capítulo XVII - 100 anos, três Brasis.
Capítulo XVIII - Perspectivas.
V
Os fenômenos econômicos políticos e sociais, entre os quais os êxodos para as cidades, as alterações dos estados coletivos de saúde, perda da capacidade de trabalho e óbitos aos montes foram consequências da revolução industrial ocorrida nos países mais ocidentais da Europa e suas repercussões em colônias do além mar que nasceram com o ciclo das grandes navegações do século XVI e deram lugar a novas colônias dos países europeus nas Américas, África e Ásia.
VI
Sociopatia é a designação que o organizador desse estudo encontrou para um fenômeno sociobiológico, político, histórico e dialético de causalidade complexa e conexa. Envolve a produção, o trabalho e violências que moldam a saúde coletiva das populações assentada nas relações conflituosas de classe para obter mais trabalho em menor tempo.
VII
A necessidade crescente de conhecimento científico é evidente, mesmo em atividades braçais, face à incorporação de novos materiais, processos e produtos tecnológicos de uso corrente. Por isso, os passos iniciais desse estudo foram estudar mais a fundo as relações sociais de classe com suas derivações para conhecer os estados coletivos de saúde e seus transtornos (TCS), leves que sejam, em categorias de trabalhadores mais acessíveis, como a bancária, de educação e judiciária, pouco ou não expostas a doenças ou acidentes tipo.
VIII
Para tanto foi concebido um questionário epidemiológico breve com sete sintomas de TCS, sinalizáveis com um (x) quando a resposta é positiva. Fácil de entender e responder no local de trabalho, ele poderá ser aplicado periodicamente para acompanhar a saúde coletiva de populações sujeitas a situações objetivas ou não de risco. O tamanho e brevidade na aplicação o faz adaptável a sintomas de mal-estar diversos e simultâneos, físicos ou associados aos psíquicos.
Antes que serviços de medicina e psicologia do trabalho se aventurem em usar tal tipo de questionário em exames de admissão ou demissão deixe-se claro que questionários epidemiológicos do tamanho e qualidade que tenham não se prestam para fazer diagnósticos de saúde do indivíduo, nem mensurar sua capacidade laboral. Ademais é doloso utiliza-lo para tais fins.
IX
A classe trabalhadora brasileira, espezinhada e
explorada vilmente em tempos de escravidão, colônia, império e república não se livrou dos grilhões que a prendem a uma burguesia tacanha, tensionada que é por sua prepotência e desigualdade de classe e por um Estado todo tempo despótico.
Apesar da espoliação, nos cem anos de sua presença realizou a epopeia sem precedentes de construir uma nação e povo, atravessados por um desenvolvimento industrial e de serviços de segunda mão, monopolizado, caótico e perversor e pe******do.
X
Há que festejar a capacidade física, intelectiva e de resistência dos trabalhadores brasileiros, diante de uma burguesia saudosa do escravismo e servidão, fácil de subornar, de joelhos ante as geopolíticas econômicas desestabilizadoras dos países ocidentais europeus que se industrializaram, enriqueceram e se vangloriam, substituídas no século XX pelas dos EUA, estimuladoras de massacres impunes, perpetrados por empresas suas, transnacionais e nacionais e por um Estado nacional apossado pelo capital.
XI
Os gritos e silêncios nesses tempos de república bastarda foram muitos e muitos os mitos. Mitifica-se, o modelo de Estado neoliberal dos EUA e ignora-se ter este país uma história curta, porém de violência longa e enorme. O estado de suas dívidas torna impossível continuar fazer girar a roleta da fortuna, porém, faz girar a roda do infortúnio dos trabalhadores do mundo que padecem e sangram. Os prazeres deles são poucos e falsos, como ter um celular de última geração com múltiplas funções que os prendem ao trabalho, os domesticam, viciam, oneram e escravizam.
XII
De bandeja, a burguesia não entregará nunca o Poder. É preciso arranca-lo e só se o fará com políticas e ações da classe trabalhadora autônomas por si e para si. A decadência dos poderes do Judiciário, Legislativo e Executivo do Estado capitalista não reside no modo de gestão de homens e coisas, nem de regimes, monárquico ou republicano que seja. Nas sociedades de classe de hoje, a reprodução do capital busca inexoravelmente concentrar renda. Ou seja, o Estado capitalista monopolista contemporâneo empenha-se mais em aumentar e piorar as diferenças de classe que diminuí-las.
Os países capitalistas vivem momentos diferentes e pressionam uns aos outros. Seus Estados e governantes, quando não fazem guerra uns aos outros puxam para si o que mais é de interesse de suas burguesias, umas mais anti povo que outras, como é a do Brasil que pouco de brasileira tem.
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