10/05/2024
Queridas Amigas e Amigos,
Acabo de receber a tristíssima notícia da passagem do nosso querido amigo e colega António Caria Mendes.
Há muito que se debatia com um quadro de saúde muito complexo, que o tinha remetido para uma fragilidade muito grande.
Acaba de nos deixar, lançando entre nós um vazio que nada poderá ocupar. A sua personalidade, a sua vontade em conhecer e em dar, tornaram-no, para quem com ele conviveu, numa pessoa ímpar, de um humanismo único.
Conheci o António, ou como gostava de ser identif**ado, o Yonatan ben Avraham, há muitos anos. Tantos quanto tem o meu trabalho no diálogo com as Religiões.
Na comunidade judaica de Lisboa, o António era pessoa muito ativa. Esteve na direção da Associação de Amizade Portugal-Israel, durante muitos anos. Era um judeu ativo, comprometido e consciente da responsabiliadde, quer de cada membro da sua comunidade, como do próprio Judaísmo na História. Profundo conhecedor de Maimónides / Rambam, era um religioso profundamente racionalista, colocando o Humano acima de toda e qualquer disputa.
Aliás, a sua proximidade ao pensador do Al-Andaluz, levava o António a ser um profundo conhecedor dessa civilização que há um milénio se desenvolveu na Península Ibérica, no confronto criativo entre o Islão, o Judaísmo e o Cristianismo. Toda a sua reflexão ia no caminho desse encontro de religiões que tanto interessa resgatar como exemplo para um correr da História que não se mostra promissor.
Na área de Ciência das Religiões, o António foi aluno de Mestrado e de mais uns quantos cursos. Mas foi muito mais. Organizou eventos. Debateu. Empenhou-se e tornou-se da "casa", propondo actividades, desenvolvendo-as. Sempre fomentando o conhecimento e o diálogo.
No Mestrado, numa turma que f**a na memória por ter uma diversidade religiosa imensa, f**am também para a História os imensos, profundos e acalorados debates em que o António se envolvia com alguns colegas de outras religiões. No final, todos saiam da aula abraçados, como Irmãos.
Foi essa sua postura que o levou a organizar ciclos de conferências, a dar um imenso contributo em vários projetos de diálogo com as religiões. Sempre disponível, era de uma dádiva que, mesmo quando a sua saúde começou a piorar, nunca deixou de dar a sua parte, de partilhar as suas reflexões e preocupações com o mundo atual.
O António foi uma peça fundamental no Terras de Sefarad, em Bragança. Despojado de todo o qualquer orgulho, tudo deu para que este evento fosse o reencontro que Portugal precisava de ter com a sua herança judaica. Entusiasta, nunca deixava que o calor do momento lhe tolhesse a capacidade crítica e o desejo de tudo fazer com rigor.
O mais importante: Pessoalmente, perdi hoje um grande amigo - como muitos de nós.
Demorarei algum tempo e digerir esta perda.
A sua imagem e a sua memória continua connosco, mas hoje estamos brutalmente muito mais pobres.