11/08/2024
MONTALEGRE: O renascimento do Forno do Povo de Pedrário
- Resgate da identidade e cultura
Pedrário, uma pequena aldeia escondida entre Serraquinhos e Meixide, parece à primeira vista um lugar onde o tempo parou. As suas casas de pedra, as ruas estreitas e o silêncio que paira no ar revelam uma localidade marcada pelo isolamento, mas também pela resistência das suas gentes. Entre as várias histórias que este lugar guarda, há uma que agora emerge com força renovada: a do Forno do Povo, datado de 1888, que voltará a ter vida após 35 anos de portas fechadas.
PATRIMÓNIO E IDENTIDADE: A ALMA DA ALDEIA
O Forno do Povo de Pedrário é um edifício antigo; símbolo da identidade e da coesão social da aldeia. Para muitos, este forno representa uma ligação direta com o passado, uma época em que a vida comunitária era vivida de forma intensa e em que o ato de cozer pão ia para além da necessidade alimentar.
As mulheres falam com entusiasmo sobre o projeto: "Este forno era o centro da aldeia. As nossas maes ou avós vinham aqui cozer o pão para toda a semana, cada família tinha o seu dia. Era mais do que uma necessidade, era um ritual, um momento de partilha."
Este sentimento de pertença é ecoado por Abílio Moreno, um dos moradores mais antigos de Pedrário: "Lembro-me de quando era miúdo e os ciganos vinham de carroça para dormir aqui, à beira do forno. A aldeia inteira juntava-se aqui. Era um ponto de encontro, onde se partilhavam histórias, risos e, claro, pão."
CULTURA E ISOLAMENTO: UMA REALIDADE EM MUDANÇA
Pedrário, como tantas outras aldeias no interior de Portugal, assistiu ao longo das últimas décadas um processo de despovoamento e isolamento. A emigração das gerações mais novas para as cidades deixaram marcas, bem como a mudança e hábitos de vida locais. O encerramento do Forno do Povo, há 35 anos, foi um dos muitos sinais da mudança da vida comunitária.
Contudo, a recente iniciativa de reabrir o forno mostra que a comunidade pretende imprimir novas dinâmicas à terra. "Decidimos que era altura de fazer algo", explica. "A Comissão de Festas, composta só por mulheres este ano, tomou a liderança e juntou toda a aldeia. Queremos mostrar que ainda há vida aqui, que a nossa cultura e as nossas tradições não morreram."
O projeto de reabertura do forno é um esforço consciente para revitalizar a aldeia, reforçar os laços comunitários e revalorizar o património histórico.
O FORNO: SÍMBOLO DE RESILIÊNCIA
A história do Forno do Povo é, em muitos aspetos, a história da própria aldeia de Pedrário. Construído em 1888, o forno testemunhou gerações que nele cozeram o pão, um alimento que, para muitos, era o sustento principal das famílias. Nas palavras de Abílio Moreno, "o pão era o sustento da casa, junto com a batata e a carne de porco. Cozinhávamos 50, 100 pães de cada vez. Era uma vida simples, mas alegre."
O encerramento do forno, há 35 anos, foi um momento que marcou a comunidade, que viu uma parte significativa da sua cultura e identidade desvanecer-se. "Quando o forno fechou, foi como se um pouco da nossa alma se tivesse perdido," recorda.
Agora, com a reabertura marcada para o dia 10 de agosto, a aldeia prepara-se para um momento de reencontro e celebração. A iniciativa visa reavivar o forno e reacender o espírito comunitário.
UM FUTURO ANCORADO NO PASSADO
A reabertura do Forno do Povo é uma oportunidade para a localidade mostrar que, apesar das adversidades, a sua identidade e cultura permanecem vivas. "Vamos ter concertinas, pão quente e toda a aldeia reunida," diz com um sorriso. "Queremos que este seja um momento para todos, não só para os que cá vivem, mas para todos os que queiram participar e sentir o que é Pedrário."
Este evento é um símbolo de resiliência e de esperança num futuro onde as tradições são valorizadas e celebradas. O forno voltará a cozer pão, e com ele, reacender-se-á a chama da vida comunitária, do património e da cultura de uma aldeia que, apesar do isolamento, não deixa que a sua história se apague.
No dia 10 de agosto, Pedrário estará de portas abertas, pronta para partilhar com o mundo a sua história, o seu pão e a sua inabalável vontade de continuar a ser.
MJA