O Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade resulta da colaboração de vários investigadores (docentes universitários, doutorandos, mestrandos e estudantes de pós-graduação) cujos interesses se centram nas manifestações literárias que confluem, gravitam ou irradiam de Portugal ao longo da Idade Média, com particular incidência no arco cronológico compreendido entre os séculos XII e X
IV. Congregando membros de proveniências diversas, com formações e sensibilidades distintas, o Seminário Medieval não tem como objectivo situar-se num âmbito disciplinar único. As “disciplinas” que se definem nesta área de estudos estão sujeitas à sua circunstância histórica, o que implica reformulação constante de objectos, de métodos e da enunciação dos objectivos de conhecimento a atingir. Tendo em atenção que é inconstestável a confluência, na Península Ibérica, de realizações literárias oriundas dos mais diversos quadrantes geográficos e mentais, tanto a atenção prestada às línguas em contacto durante este fecundo e aberto período, como a tentativa de compreensão dos funcionamentos sociais e institucionais que suportam a escrita levam a pôr directamente em causa as perspectivas nacionalistas estreitas em que se fundamentou o estudo da Idade Média e da sua literatura desde o séc. Assim, a adopção de estratégias comparatistas amplas constitui um pressuposto de trabalho partilhado pelo conjunto do grupo, na convicção de que, embora de modos diversos, cada obra considerada constitui a actualização formal e discursiva de modalidades textuais comuns a outros espaços culturais e linguísticos, ibéricos, europeus, mediterrânicos ou mesmo mais longínquos. Por outro lado, embora privilegiando deliberadamente perspectivas interpretativas, a investigação do grupo foi caminhando em direcção aos testemunhos e à tradição manuscrita de cada obra em estudo, como etapa incontornável de apuramento rigoroso da letra mais próxima da vontade de quem dela assumiu a autoria, situando, pois, a disciplina filológica no centro dos seus procedimentos e das suas atenções, embora não como um fim em si. Na realidade, o inquérito a uma crónica, a um romance ou a um cantar, do ponto de vista do sentido que encerra, tanto depende do que da respectiva letra subsistiu como da possibilidade de reconstituir não apenas o seu promotor e o seu público, mas também o seu trajecto, a sua sobrevivência, em muitos casos o processo de reescrita directa ou indirecta a que deu lugar. Se o método comparatista se oferece como ponto de partida inevitável no estudo destes textos, esse método acaba por se tornar um parceiro de caminhada que não é possível abandonar, mesmo quando a Idade Média eleita está já para trás e, passo a passo, o percurso encetado nos leva aos dias de hoje. Investigando no sentido de compreender como trabalhou quem escreve e que efeitos de leitura poderá ter provocado o produto do seu labor, deslocámo-nos do âmbito restrito da literatura para o inquérito mais geral às práticas discursivas, para a avaliação dos sentidos e das estratégias por trás da manipulação da letra, o que nos reconduz obrigatoriamente ao campo da circunstância histórica e da construção literária como uma das dimensões dessa circunstância. Aí se cruzam, por seu turno, condicionantes de longo alcance e permanência, entre as quais as estruturas da língua utilizada e respectiva forma de apreensão do mundo, bem como os paradigmas mentais e ideológicos dominantes, não esquecendo as mais profundas e constantes vertentes do imaginário que vão aflorando entre as sombras dos sentidos literais. A diversidade dos propósitos da sua actividade, onde se combinam contribuições de disciplinas diversas, entre as quais as que decorrem do estudo do pensamento medieval, levou a que o grupo se integrasse no Gabinete de Filosofia Medieval do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde conta prosseguir a sua acção numa mais ampla combinação de esforços e de objectivos, tanto em torno dos eixos de investigação já definidos, como perspectivando novos projectos conjuntos.